sábado, 17 de março de 2018

Como a Bíblia relaciona-se com o Islamismo?




O islamismo ensina que, ao longo da história, Deus enviou profetas - desde Adão, passando por Noé, Jesus, e, em última análise, Maomé -, todos com a mesma mensagem: existe um único Deus, que deseja que as pessoas busquem o bem e evitem o mal. Segundo o islamismo, os cristãos e os judeus, "pessoas do livro", devem ser os remanescentes seguidores de revelações anteriores - divinas, mas corruptas. Os muçulmanos consideram que as escrituras do islamismo, o Corão, restauraram a orientação original de Deus. O Corão inclui numerosas personalidades bíblicas, mas reconhece como autênticas somente três seções da literatura bíblica: a Torá de Moisés, o Evangelho de Jesus e os Salmos de Davi.

Os muçulmanos consideram bíblicas muitas de suas crenças e práticas: a existência de um único Deus, os profetas, o céu, o inferno, os anjos, e um dia e juízo. Eles também veem a importância da caridade, da oração e do jejum na Bíblia. Embora acreditem que Jesus foi somente um profeta, não divino, aceitam os relatos do seu nascimento de uma virgem, da sua natureza sem pecado, dos seus milagres e da sua segunda vinda.

O Corão acusa os judeus e os cristãos de distorcerem a sua revelação anterior, suprimindo deliberadamente a verdade ou fazendo interpretações falsas. Os muçulmanos afirmam que o Antigo e o Novo Testamento contêm inconsistências lógicas, improbabilidades e erros factuais. As acusações contra o Antigo Testamento incluem falsos relatos de imoralidade (Davi e Bate-Seba), a ausência de doutrinas (a vida após a morte, na Torá), e a incompatibilidade com a ciência. O evangelho foi corrompido com referências históricas, inexatas, discrepâncias em suas narrativas e invenções (como a crucificação). Supostamente, os cristãos e os judeus suprimiram ou removeram predições bíblicas de Maomé. Por exemplo, Salmos 84.4-6 é considerado como uma referência a Maomé, que superou as suas deficiências de infância pela graça de Deus, Jesus teria predito a vinda do profeta Maomé, quando falou sobre o "Conselheiro", em João 14.

O islamismo rejeita o conceito da participação humana no processo da revelação, que é vista em livros bíblicos variados (Evangelhos, Epístolas etc.). A mensagem original de Jesus é considerada perdida. Os muçulmanos acreditam que os autores do Evangelho, que escreveram muito tempo depois de Jesus, alteraram a mensagem para promover os próprios pontos de vida. As cartas de Paulo supostamente promovem um Cristo "místico" e "falsas" doutrinas, como a ressurreição. Outro argumento muçulmano contra a confiabilidade bíblica é a falta de um registro de que os textos originais passavam de uma geração para a seguinte.

Naturalmente, os muçulmanos estão corretos em pensar que a Bíblia é mais antiga do que o Corão. Mas não há uma sombra sequer de evidência de que a Bíblia tenha sido corrompida. Na verdade, a transmissão do seu texto é, de longe, a mais exata, em comparação com qualquer texto do mundo antigo. A Bíblia não é comprometida pelo uso que Deus faz de personalidades humanas em sua escrita, não mais do que quando Ele usa a personalidade humana na palavra pronunciada pelos profetas. Além disso, fortes evidências respaldam, entre outras coisas, a historicidade da crucificação e da ressurreição de Cristo. Os cristãos reverentes podem ajudar a corrigir conceitos equivocados dos muçulmanos sobre a Bíblia (por exemplo, mostrando que a Bíblia não sanciona a iniquidade da cultura ocidental). Na verdade, os seguidores de Cristo devem auxiliar os muçulmanos para que o Espírito Santo traga a convicção aos seus corações, por intermédio da poderosa Palavra de Deus (Hb 4.12).

Barbara B.  Pemberton



sábado, 10 de março de 2018

Como um cristão deve relacionar-se com os membros de religiões e movimentos não cristãos?




Quando testemunhamos os que tem religiões não cristãs, devemos evitar nivelá-los através de uma abordagem que os trate como se fossem semelhantes uns aos outros. Ao mesmo tempo, não devemos ignorar os pontos em comum que fundamentam a lealdade religiosa, quer seja cristã, quer não. Se tivermos uma sensibilidade apropriada para com as diferenças individuais, poderemos identificar algumas estratégias úteis para conquistar seguidores de movimentos religiosos não cristãos.

Trate das motivações pessoais que fundamentam o comprometimento religioso. Frequentemente, as pessoas comprometem-se com uma religião para satisfazer às necessidades pessoais. Nas novas manifestações religiosas, em particular, existe um foco na transformação do ser. Os adeptos de falsas religiões com frequência se unem para tratar de necessidades intelectuais, emocionais, sociais e espirituais. As pessoas estão procurando relacionamentos amorosos e um sentimento de conexão; uma atmosfera familiar (particularmente atraente para os que não tem família ou cuja família é perturbada); um sentimento de aceitação e de valor próprio (às vezes, por ser parte da "grande obra de Deus" por meio do movimento religioso ou da falsa religião); uma oportunidade de alcançar objetivos idealistas ( por exemplo fazer obras de filantropia e caridade); uma maneira de aplacar profundos anseios espirituais (por exemplo, ter uma sensação do "divino" ou "transcendente"); e um sistema de fé que propiciará respostas para as perguntas mais profundas da vida ("Por que estou aqui?", "Qual é o propósito da vida?")

Estas aspirações dificilmente são exclusivas dos membros de falsos movimentos religiosos. Tampouco existe algo necessariamente sinistro no fato de as pessoas buscarem satisfazer estas necessidades. Na verdade, muitos envolvem-se em igrejas cristãs de base bíblica pelas mesmas razões - unem-se à igrejas, por exemplo, por causa dos relacionamentos de carinho e comprometimento que vivenciam como parte da família de Deus. O problema com as falsas religiões é o fato de que, em última análise, elas não podem satisfazer os mais profundos anseios do espírito humano. Somente o verdadeiro evangelho pode fazê-lo. Uma das coisas mais importantes que podemos fazer para alcançar aos que estão presos em falsas religiões é proporcionar um ambiente onde possam ser satisfeitas estas necessidades espirituais, sociais, emocionais e intelectuais. A igreja deve proporcionar - e, de modo geral, o faz - este tipo de ambiente, mas para os que vem de falsas religiões, a necessidade é particularmente urgente. Alguns novos movimentos religiosos podem ser difíceis para os que os deixam, evitando-os ou "desfiliando-os". A pessoa que deixar um desses grupos pode sentir de uma só vez a perda de todo o sistema de apoio da família e dos amigos. A igreja necessita ser sensível com relação a isto e deve estar preparada para fazer um esforço a fim de alcançar estes indivíduos, aceitando-os no corpo de Cristo com braços amorosos.

Classificar, compreender e refutar apropriadamente os falsos sistemas de fé. Por mais importantes que sejam os fatores interpessoais mencionados acima, também é necessário compreender corretamente, (e então refutar biblicamente), o falso sistema de fé.

O primeiro passo é classificar com precisão o tipo de sistema de fé em questão. É preciso fazer uma distinção básica entre novos movimentos religiosos dependentes do cristianismo e grupos religiosos que não afirmam ter relação com o cristianismo. Os primeiros afirmam ser cristãos, mas negam uma ou mais doutrinas essenciais da fé cristã. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (os mórmons(, as Testemunhas de Jeová e a Ciência Cristã são alguns exemplos. As religiões do mundo, como o islamismo, também negam crenças fundamentai cristãs, incluindo a doutrina da Trindade e a divindade de Cristo, mas, diferentemente dos novos movimentos religiosos do cristianismo, não afirmam ser cristãs e, na verdade, repudiam explicitamente tal rótulo.

A distinção entre novos movimentos religiosos dependentes do cristianismo e as religiões do mundo não é meramente acadêmica. Dirigimo-nos a um muçulmano de maneira diferente da que usamos para falar a um mórmon. Por exemplo, não precisamos convencer um mórmon de que Jesus Cristo é o Salvador e de que o cristianismo é verdadeiro. Na verdade, o mórmon já acredita que Jesus é o Salvador e que sua igreja é a verdadeira restauração do cristianismo, sob a liderança de Joseph Smith. A tarefa é mostrar que o mormonismo é uma forma falsificada do cristianismo, com um falso Jesus que não salva. Um muçulmano por outro lado, não somente terá noções deturpadas do que ensina o verdadeiro cristianismo, como também terá de ser convencido de que o cristianismo é a verdadeira religião.

Também devemos compreender o sistema de fé não cristão que estamos confrontando com tanta exatidão e tantos detalhes quanto seja possível. A incapacidade de fazer isto pode rapidamente causar um curto-circuito em uma oportunidade de testemunho, pois os seguidores de uma falsa religião rapidamente deixarão de dar atenção a um cristão que lhes impute crenças que eles não tem. É importante, como destacam Robert e Gretchen Passantino, observar um tipo de regra de ouro quando discutirmos sistemas de fé não cristãos: representar o sistema de fé deles com a mesma exatidão como você desejaria que eles representassem o seu. Somente então poderemos esperar ser levados a sério quando confrontarmos os erros das falsas religiões com as declarações de Jesus Cristo.

Alan W. Gomes


 

sábado, 3 de março de 2018

Como um cristão deve relacionar-se com o movimento da Nova Era?



Embora os vestígios de uma perspectiva bíblica ainda sejam evidentes, pesquisas de opinião revelam que as crenças doutrinárias de, talvez, uma terça parte dos ocidentais,podem ser caracterizados como de Nova Era. As ideias deste Movimento da Nova Era (MNE) são amplamente, e às vezes subconscientemente, disseminados por meio da televisão (por exemplo, o programa de Opra Winfrey) e dos filmes (por exemplo, Guerra nas Estrelas). O MNE também tornou-se um grande negócio, com suas miríades de seminários de autoajuda, publicações e guias para oração (de modo frequentemente imitando tradições cristãs), e livros.


Os seguidores do movimento muitas vezes rejeitam a expressão "Nova Era" devido às suas conotações.De qualquer forma, um nome melhor talvez seja "religião pós moderna", em vista das suposições que ela tem em comum com o pós-modernismo filosófico. Rejeitando, de modo geral, uma abordagem científica ou analítica (modernista) à vida, os seguidores creem que o conhecimento é construído de maneira subjetiva e determinado socialmente. A verdade não é universal para todos os humanos, mas pode variar, de acordo com o que "funciona" para alguns, e não para outros. Os valores morais não são universalmente objetivos, mas apenas propriedades de comunidades que decidem aderir a eles. As pessoas adeptas à perspectiva do MNE consideram a realidade como um conjunto unificado em evolução; na verdade, eles muitas vezes consideram Deus como sendo um nome para este conjunto. Eles desdenham particularmente o cristianismo bíblico, devido às suas reivindicações de ser a verdade universal.


Uma vez que o MNE não está sob a autoridade de nenhum texto religioso em particular, os proponentes são identificados por vários "sintomas", como os seguintes: eles preferem a prática da espiritualidade às organizadas e clássicas de religião; eles creem que nenhum professor religioso pode reivindicar a adesão de todos; as declarações de Jesus como sendo o Caminho devem ser reinterpretadas ou completamente rejeitadas;de acordo com eles, em lugar da graça de Deus revelada completamente rejeitadas; de acordo com eles, em lugar da graça de Deus revelada no Jesus da Bíblia, "anjos", forças paranormais ou até mesmo o potencial humano puro servem como "salvadores" das dificuldades da raça; misturando e combinando os objetos de adoração, eles muitas vezes identificam-se simultaneamente com palavras como budista, judeu e presbiteriano. Em última análise, o MNE representa um retorno ao politeísmo, ou a crença em vários falsos deuses.


Como, então, devem os cristãos começar a compartilhar Cristo com os que pertencem ao MNE? Muitas vezes, é uma discussão sobre a verdade que abre o caminho. Se a verdade universal e objetiva não existe, então as declarações do Evangelho são falsas. Mas todas as pessoas vivem como se as crenças cotidianas devessem corresponder a realidade (por exemplo, ninguém consegue viver de veneno, em lugar de água). Assim sendo, por que alguém deve defender que a crença em Deus e na vida após a morte é, de alguma maneira, diferente? A incoerência nos assuntos cotidianos é considerada desonesta e irracional ("Sim, senhor guarda, aquele carro parado em fila dupla é meu, mas não é meu"). Por que, então aceitar declarações do tipo: "Cristo pode ser verdadeiro para você, mas não para mim?"


À primeira vista, o tratamento de má qualidade dispensado à verdade no MNE faz com que ele pareça mais tolerante que o cristianismo. Mas, na verdade, ele considera, de maneira condescendente, as declarações de todas as outras religiões como erradas, ignorantes, e divisoras, crendo que somente os que estão no MNE veem o quadro completo; outras religiões, concentradas em seus ensinamentos tradicionais, não tem ciência da profunda unidade oculta entre todas as religiões. Mas, há uma boa razão para crer que realmente existem muitos caminhos para o céu? Como alguém pode afirmar conhecer a verdade universal (especialmente se não existem verdades universais)? Os mapas rodoviários não pressupõem que há apenas um caminho que pode levar a um destino. Os caminhos podem ser escolhidos pelo seu percurso tranquilo ou pelas suas belas paisagens, mas nem todas levam ao mesmo lugar.

Ted Cabal






sábado, 24 de fevereiro de 2018

Como um cristão deve conviver com um budista?




A atração pela espiritualidade oriental, e, em particular, pelo budismo, é poderosa, porque o espírito humano anseia por respostas espirituais. Assim, sempre que um cristão conversa com uma pessoa de outra fé, incluindo o budista, deve tentar revelar os anseios do coração humano, e como somente Cristo os atende.

Gautama Buda ensinou que nós devemos nos libertar das ilusões relacionadas à individualidade, a Deus, ao perdão e à vida individual futura. Nós devemos nos concentrar em uma vida em que as boas obras superem as más. Buda acreditava que toda vida sofre, e que para escapar do renascimento, devemos compreender a nossa natureza. Se extinguirmos os anseios e nos livrarmos de nossos desejos (especificamente, os relacionamentos), então nos livraremos de todos os atos e pensamentos impuros. Esta é a esperança do budismo.

Mas a atração ao budismo não fornece nenhuma resposta real. O ego - que é inegável e inevitável - é perdido, na filosofia budista, que remove os anseios da alma. Tudo está aos nossos cuidados, Todas as perdas são nossas. Não há "outro" a quem possamos recorrer, nem ao mesmo um ser a quem possamos falar. contudo, a negação do budismo de um Deus pessoal é incapaz de impedir que os seus adeptos procurem se relacionar com um ser pessoal e adorá-lo. Há um anseio universal que impulsiona um ser a outro ser pessoal e transcendente, que não seja de sua própria criação.

Buda considerava que a vida atual é um pagamento por vidas anteriores. Cada renascimento é devido às dívidas do carma, mas sem o transporte da pessoa. Em contraste, o cristianismo considera o ser individual como distinto e indivisível. O amor de Deus é pessoal. Jesus trouxe a oferta de Deus de perdão verdadeiro e vida eterna, enquanto declarava cada indivíduo como criado exclusivamente à imagem de Deus. Considerando as palavras de Jesus, entendo que o sofrimento é apenas uma indicação de que a vida não tem um relacionamento correto com Deus. Nós nos afastamos de Deus, de nossos companheiros, os seres humanos, e até de nós mesmos.

Em contraste com o carma - onde o "pecado" nada mais é do que ignorância ou ilusão - o perdão de Cristo pode proporcionar um verdadeiro apelo para o budismo. O evangelho proclama que nós estamos interiormente quebrantados, e a esta situação Jesus traz a resposta. Ao encontrar o relacionamento verdadeiro com Deus, todos os outros relacionamentos passam a ter um valor moral. Deus, que é distinto e distante, se aproximou, de modo que os que são pecadores e estão fracos possam ser perdoados, e possam ser fortalecidos na comunhão com o próprio Deus, sem perderem a identidade. Este simples ato de comunhão abrange o propósito da vida. O indivíduo conserva a sua individualidade, enquanto vive em comunidade.

Além disto, Cristo não prescreve a extinção do ego - o que não é possível - mas, na verdade, prescreve que não vivamos mais para nós mesmos. O anseio pela justiça é bom e tra satisfação da parte de Deus. Todos aqueles que entregarem todas as coisas aos pés de Jesus podem confessar, com o apóstolo Paulo: "Eu sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele Dia" (2 Tm 1.12). Jesus Cristo guarda todos os nossos propósitos, amores, ligações e afetos, quando nós confiamos a Ele. 


Ravi Zacharias



sábado, 17 de fevereiro de 2018

Verdadeira Essência




Talvez algumas pessoas se espantem com a ideia de que a "Igreja" - os discípulos reunidos - na verdade não precisa de mais pessoas, mais dinheiro, construções e programas melhores, mais ensino ou mais prestígio. Foi no período em que esses elementos se mostraram escassos ou inexistentes que o povo de Deus reunido, a Igreja, mais se aproximou de sua verdadeira essência. A única coisa de que a Igreja precisa para cumprir os propósitos de Cristo na terra é a qualidade de vida que ele torna real em seus discípulos. Com essa qualidade, a Igreja prosperará em tudo o que realizar ao longo do processo de tornar clara e disponível na terra a "vida que é vida de verdade".

Dallas Willard - A Grande Omissão


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Gosto pela análise.




Quando leio a Bíblia, não faço da mesma maneira pelo qual me aproximo de outras formas de literatura. Isso não significa que eu ponha de lado minha capacidade crítica. Na verdade, meu gosto pela análise fica ainda mais aguçado quando leio a Escritura, porque me vejo motivado por um desejo profundo de compreendê-la.

R C Sproul



sábado, 3 de fevereiro de 2018

Argumentos que se autorrefutam.




Algumas ideias tendem a se autodestruírem ao se apresentarem. Sua tarefa é apenas ressaltar essa tendência, e então observar tal ideia se desmoronar lentamente.



Durante o processo de desenvolvimento de uma fé racional, percebemos às vezes que defender-se contra um oponente não exige de nós nenhum esforço. Em certas ocasiões, a maneira mais fácil de lidar com um ponto de vista contrário ao seu não é alimentá-lo com mais informações, mas, sim, usar uma tática que revele a falácia do raciocínio do seu objetor. Umas das mais eficazes é uma que eu chamo de tática do “suicídio”.


Certa vez alguém disse que se você der corda o bastante para uma pessoa, ela irá se enforcar. A tática do “suicídio” tira vantagem da tendência de muitos argumentos se autodestruírem quando são enunciados. Essas ideias caem na armadilha de sua própria esperteza e logo se evaporam.


Elas são comumente conhecidas como pensamentos que se autorrefutam, ou seja, ideias que anulam a si mesmas. Não raro, pensamentos que se autorrefutam são evidentes. A declaração “Meu irmão é filho único” é um exemplo. Um outro exemplo  foi visto impresso na camiseta de um estudante de filosofia. Na frente, lia-se: “A frase na parte de trás dessa camiseta é falsa.” Atrás, estava escrito, “A frase na parte da frente dessa camiseta é verdadeira”.



Se for verdadeira, é falsa

 


Uma visão que se autorrefuta é necessariamente falsa. Não lhe é nem possível ser verdadeira. Mas se der a impressão de ser à primeira vista, ainda assim se provará falsa. Eis a razão.

O filósofo J. P. Moreland observa que toda declaração é sobre alguma coisa. Por exemplo, “Cachorros têm pulgas” é sobre cachorros. Às vezes, algumas afirmações incluem em si próprias aquilo a que elas estão se referindo. A frase “Todas as sentenças em português são curtas” refere-se a todas as sentenças em português, incluindo ela mesma. Quando uma afirmação falha em satisfazer seu próprio critério de validade, temos uma afirmação que anula a si mesma. Não há possibilidade de ela ser verdadeira.

Outro exemplo, a sentença “Não sei falar uma palavra em português” se autorrefuta quando pronunciada em português. A afirmação de que não há frases com mais de cinco palavras também é necessariamente falsa (conte as palavras). Da mesma forma, ideias que se autorrefutam já trazem dentro de si as sementes de sua própria destruição. Expressam uma contradição e, portanto, um conceito que anulam a si mesmas. Sua tarefa é apenas ressaltar isso e depois observar esse conceito se destruir. Se você estiver atento, isso pode ser feito quase sem esforço, como Charlie Brown demonstra nesse diálogo com Sally:

Sally: “‘Não!’ Esta é minha nova filosofia. Não me interessa o que qualquer pessoa diga, a resposta é ‘Não!’.”
Charlie Brown: “Esta é sua nova filosofia, certo?”
Sally: “Sim! Quer dizer, ‘Não!’…[Desesperando-se] Você destruiu minha nova filosofia.”

Isso acontece o tempo todo. Durante uma transmissão de rádio, discordei da teologia de alguns televangelistas. Imediatamente fui contestado por um ouvinte que ligou e disse: “Você não deveria corrigir líderes cristãos de forma pública numa rádio”. Eu respondi, “Então por que você está ligando para me corrigir de forma pública em meu programa de rádio?”


Já outros, convencidos de que argumentar é proibido pelas Escrituras, argumentam com persistência de que estou sendo desobediente às ordens bíblicas ao assumir posicionamentos contrários aos de meus ouvintes.


Há os que rejeitam a missão da apologética por acharem que a razão nunca é adequada na busca de descobrir a verdade. Em seguida, essas mesmas pessoas listam, de forma sistemática, as razões que as levam a pensar que a opinião delas é verdadeira.

Aqui estão alguns outros exemplos evidentes que encontrei ao longo dos anos:

“Não existe verdade.” (Essa sentença é verdadeira?)
“Não existem absolutos.” (Você tem certeza absoluta disso?)
“Ninguém pode saber nenhuma verdade sobre religião.” (E de que maneira, exatamente, você veio a saber essa verdade sobre religião?)
“A ciência é o único método seguro de descobrir a verdade.” (Que experimento científico te ensinou essa verdade?)

Abaixo mais exemplos diretos de declarações que se autorrefutam. Como você revelaria as falhas delas?

“Não se pode saber nada com certeza.”
“Falar sobre Deus é algo sem sentido.”
“Só se pode conhecer a verdade através da experiência.”
“Acho que não devemos impor aos outros os valores de outra pessoa.”

Embora estes sejam exemplos óbvios de declarações que derrotam a si mesmas, às vezes as falhas são mais sutis.


O relativismo moral se autodestrói


Sempre que alguém disser, “Você não deve me impor sua moralidade”, pergunte “Por que não?”. Geralmente, a resposta será um exemplo de imposição de moralidade por parte dessa pessoa. Para que a objeção faça sentido, ela terá que afirmar um padrão moral enquanto nega a existência de quaisquer normas morais. Essas tentativas se reduzem a “Você está errado em dizer que as pessoas estão erradas”, ou, de forma mais direta, “Você não deve julgar, seu intolerante mesquinho”. Essas declarações são muitas vezes apelos em favor da tolerância. Uma pessoa não deve tentar mudar as crenças de outra.


Mas isso não é um avanço. A exortação em si é uma tentativa de te persuadir a mudar suas crenças “intolerantes”.


Para ilustrar esse ponto, eu estava tendo uma conversa amigável com um não cristão quando chegamos ao tema da homossexualidade. Ele logo se ofendeu com minha visão “condenatória”.


“Sabe, esse é o problema dos cristãos”, ele disse. “Estão sempre julgando a moral das outras pessoas”. Por um momento, ele ficou sem palavras quando mostrei que essa frase constituía um interessante julgamento moral da parte dele. Recuando, ele refez seu discurso e tentou argumentar de outra maneira.

“Está bem”, ele admitiu após refletir um pouco. “Acho que não há problema em julgar, desde que você não tente impor sua moralidade sobre os outros”. Ele pensou que isso resolveria seu problema. Enganou-se.


“Essa é a sua moralidade?” Perguntei. Ele assentiu. “Então por que você está impondo-a sobre mim?”. Ele estava de volta à “estaca zero.”


Depois de algumas tentativas frustradas, ele desiste: “Isso não está certo. Não consigo achar uma forma de dizer isso de modo que funcione.” Ele achou que eu estava brincando com ele.


Sorri discretamente. “Você não consegue achar uma forma porque ela não existe. Sua frase é contraditória. Não há como ela ser verdadeira.”


Relativistas morais sempre são pegos nessa dificuldade. É como se dissessem, “Não existem regras morais; aqui está uma.”


A única maneira de um relativista ser consistente é dizer, “Sinto que está errado, mas meu parecer não passa de uma opinião pessoal e não tem nada a ver com você. Por favor, desconsidere meus comentários.

C. S. Lewis faz a seguinte observação:

“Sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em seguida este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mesma coisa, ele lhe dirá “Não é justo!” tão rápido que você não terá tempo de dizer palavra alguma. Um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado específico que pretende romper não é um tratado justo. Se […] não existe um certo e um errado […] qual a diferença entre um tratado justo e um injusto?”

É possível que alguém discuta com você com entusiasmo e eloquência em defesa do relativismo moral e, contudo, reclame quando alguém toma a frente dele na fila. Essa mesma pessoa alegará tratamento injusto recebido no trabalho e denunciará a injustiça no sistema legal. Criticará os políticos desonestos que traem a confiança do povo e condenará os fundamentalistas intolerantes que impõem seus pontos de vista morais sobre outros. Acontece que, cada uma dessas objeções não tem sentido nenhum, são exemplos de um raciocínio autodestrutivo.

É a verdade verdadeira?


Em um debate acerca do pós-modernismo na Universidade Chapman, defendi o que parecia ser uma alegação bastante modesta: A verdade objetiva pode ser conhecida. Meu oponente, Dr. Marv Meyer, foi forçado a argumentar contra minha proposição, declarando de forma eficaz que ele conhecia a verdade que não se podia conhecer.


Esse debate me fez lembrar de um mestre de obras que, certo dia, reclamava da qualidade do ar em Los Angeles. “Essa fumaça está me matando,” ele disse. “Preciso de um tempo. Vou aqui fora fumar um pouco”. O comentário dele encerra uma contradição. Ele fez referência a algo condenável e, em seguida, passou a fazer, sem perceber, justamente o que ele tinha condenado. Não notou nenhum conflito entre sua reclamação e seu procedimento.


A proposta do Dr. Meyer era muito semelhante à declaração do mestre de obras. Primeiro, meu oponente argumentava que o conhecimento era de determinada forma. Segundo, afirmava que o conhecia tal como ele é. Ao longo de todo o debate, ele sustentou que essas afirmações são falsas. Meu trabalho já estava feito antes mesmo de eu começar.


Nas minhas considerações finais, eu disse à plateia que concordava alegremente com muitas das afirmações feitas pelo meu oponente. Elas provavam meu ponto.

“Quando lhes for solicitado que votem ao final do debate desta noite”, eu disse, “muitos de vocês votarão a favor da proposta de Marv, o que significa dizer que ele convenceu vocês de que a perspectiva dele era a verdadeira e a minha era a falsa. Caso isso aconteça, terei a certeza de que tive êxito em defender meu argumento. Com satisfação, considerarei cada voto para Marv como um voto a favor da seguinte resolução: A verdade objetiva pode ser conhecida.”


A versão “cristã” do pós-modernismo não se sai melhor. Alguns pensadores cristãos flertam com o relativismo, batizando-o com linguagem religiosa. “Há dois tipos de verdade”, eles dizem, “a verdade de Deus e a verdade do homem. A verdade de Deus é absoluta e só pode ser conhecida por ele. Só podemos conhecer a verdade do homem, que é limitada e relativa às nossas perspectivas pessoais”. Minha pergunta é: que tipo de verdade se reflete nessa afirmação? Se é a Verdade de Deus, como eles vieram a saber o que só Deus pode conhecer? Se é meramente a perspectiva falível do homem, então por que eu deveria confiar em uma generalização tão abrangente sobre a questão da verdade absoluta?

“Suicídio” religioso


O conceito de pluralismo religioso, o qual afirma que todas as religiões são igualmente verdadeiras, também se autorrefuta.


Se todas as religiões são verdadeiras, então, segue-se que o cristianismo é verdadeiro. No entanto, uma das verdades do cristianismo afirma que as outras religiões são falsas. Ou o cristianismo é verdadeiro e as outras religiões são falsas ou alguma outra visão de mundo é verdadeira e o cristianismo é falso. Em qualquer um dos casos, não é possível que todas as religiões sejam verdadeiras.


Uma objeção comum à noção de inspiração bíblica diz o seguinte: A Bíblia foi escrita somente por homens. Trata-se de um livro repleto de ideias humanas e todas as ideias humanas possuem falhas. Portanto, a Bíblia é um livro cheio de falhas.


Se todas as ideias humanas possuem falhas, então, a ideia de que todas as ideias humanas possuem falhas também é uma ideia falha, o que configura uma contradição. A objeção se autodestrói.


C. S. Lewis cita um exemplo que ilustra esse mesmo problema. Em resposta à alegação freudiana e marxista de que todos os pensamentos são, em sua origem, psicológica ou ideologicamente marcados, Lewis escreve:

“Se eles afirmam que todos os pensamentos são assim marcados, então, obviamente, devemos lembrá-los que o freudismo e o marxismo são sistemas de pensamento da mesma forma que o são a teologia cristã ou o idealismo filosófico. O freudiano e o marxiano acham-se no mesmo barco em que todos nós estamos, e não podem nos criticar como se estivessem do lado de fora. Fazendo isso, cortam o galho sobre o qual eles mesmos estão sentados. Se, em contrapartida, eles disserem que o estar marcado não precisa invalidar o pensamento deles, tampouco, portanto, precisa invalidar o nosso. Nesse caso, eles salvam o galho em que estão, mas também salvam o nosso.” (God in the dock, p. 300)

O hinduísmo como uma visão religiosa também parece transigir com noções contraditórias. Ele sustenta que a realidade como a conhecemos é uma ilusão, uma ideia que se chama Maya dentro da perspectiva hinduísta. Somos todos parte dessa ilusão e não existem identidades individuais verdadeiras.


Minha pergunta é: se sou parte dessa ilusão, como eu poderia saber disso? Como eu conseguiria possuir o verdadeiro conhecimento de que não existo ou possuir qualquer espécie de conhecimento se não sou real? Os indivíduos em um sonho sabem que não passam de fantasmas? Charlie Brown sabe que ele é um personagem de desenho animado?


O conceito hindu de que o mundo é uma ilusão contradiz a ideia de que eu posso ter o conhecimento que me diz que não sou uma mera ilusão, o que torna o conceito hindu um pensamento que se autorrefuta.


A maneira mais comum de escapar desse problema é a reivindicação de que a lei da contradição é uma noção ocidental e não se aplica ao pensamento oriental, como o hinduísmo. As noções contraditórias são igualmente verdadeiras no pensamento deles. Mas esse estratagema não é menos autodestrutivo. Se as noções contraditórias são igualmente verdadeiras na religião oriental, então a visão contrária – a de que as contradições de fato devem ser levadas em conta –, tem de ser aplicada também.


Liberdade, racionalidade e conhecimento


Há quem defenda que tudo na vida é determinado por condições físicas prévias e que, na verdade, a liberdade da vontade não é uma realidade. O mesmo pode ser dito se a alma não existir.  Se não há um centro dentro de nós que exerça livre arbítrio, segue-se que todas as nossas “escolhas” não passam de resultados inevitáveis de forças físicas cegas.


E o problema é justamente esse. Sem liberdade genuína, não pode haver racionalidade. Ninguém seria capaz de escolher suas crenças fundamentando-as em alguma base de evidências. As crenças seriam sustentadas por que assim haviam sido predeterminadas.


Por esse motivo, é estranho quando alguém tenta argumentar a favor do determinismo. Sua convicção não pode estar baseada em razões, nos méritos da posição em si, mas em condições prévias que produziram tal crença. Essa pessoa estaria “determinada” a acreditar no determinismo enquanto outras estariam “determinadas” a discordar dele.

Portanto, se não há livre arbítrio, nem sequer se poderia saber disso. Todos os nossos pensamentos, atitudes e opiniões seriam frutos de uma predeterminação em vez de terem sido escolhas com base em boas razões.


Há outros que limitam o campo do conhecimento apenas aos fenômenos que podem ser testados empiricamente. Para eles, todo conhecimento se baseia na observação. Mas essa é uma verdade que eles aprenderam com base na observação? E mais: será que eles observaram todo conhecimento a fim de saberem qual a natureza de todo conhecimento?


Alvin Plantinga, da Universidade de Notre Dame, chama essa tendência suicida de “labirinto filosófico”. Se você usa a ideia em outra pessoa, ele diz, é bem possível que você já esteja preso nela.

Você é aquilo que come?


Certa vez vi uma placa em um restaurante na qual se lia, “Você é o aquilo que come”. Ressaltei para o garçom que se somos o que comemos, logo não poderíamos ser algo até que comêssemos alguma coisa. Mas não podemos comer algo até sermos algo. Assim, não é verdade que somos o que comemos.


O garçom me olhou e disse, “Você terá que conversar com o gerente.”


Sempre esteja atento a argumentos com tendências suicidas. Faça a pergunta, “Essa posição carrega em si as sementes de sua própria destruição?” Não pense que você precisa fazer todo trabalho refutando um argumento ruim. Mantenha-se atento e fique em alerta. Quando perceber que o ponto de vista de seu oponente é autodestrutivo, faça uma pergunta que explore o problema. Então deixe ele se afogar no próprio navio!


Traduzido por Reginaldo Castro e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Arguments That Commit Suicide. Stand to Reason.

Autor: Gregory Koukl obteve seu mestrado em filosofia da religião e ética na Talbot School of Theology e seu mestrado em apologética cristã na Simon Greenleaf University. É professor adjunto de apologética cristã na Biola University. Tem apresentado seu próprio programa de rádio por 20 anos, onde defende a cosmovisão cristã.

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